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O ‘caminho’ para a rejeição de uma opção de mobilidade

Caro leitor, se lhe derem a escolher entre uma roupa bonita e confortável, e outra roupa feia e desconfortável, qual vai escolher? Supondo que não está a caminho de um safari no meio da lama, certamente escolherá a roupa que lhe dá mais auto-estima e conforto. Poderíamos dar muitos exemplos, mas do lhe queria falar era dos meios que percorremos para chegar onde queremos.

Suponha então que pretendemos usar o transporte público, e vamos escolher o caminho até à estação onde o vamos apanhar. Se nos derem a escolher entre um caminho bonito, confortável, direto, e seguro, e outro feio, estreito, com barreiras, desvios e passagens que nos fazem sentir inseguros, normalmente escolhemos o primeiro.

Mas e se tivermos como única opção o caminho desconfortável e inseguro, o que fazer? Claro, escolhemos a alternativa que nos faz sentir melhor: o carro!

Por isso, numa cidade onde se promove a utilização dos transportes públicos e o andar a pé, é uma prioridade absoluta providenciar caminhos para as principais estações de transporte público que sejam agradáveis, diretos e seguros.

O que aconteceu então no Parque das Nações, que é um sítio notado por supostamente se ter procurado que o espaço público para peões tivesse uma qualidade acima da média?

Veja-se o caso da Estação de comboios de Moscavide. Esta estação oferece um serviço notável, em que é possível chegar ao centro de Lisboa num abrir e fechar de olhos. Seja em 9 minutos até Roma/Areeiro, 11 minutos até Entrecampos ou 13 minutos até Sete-Rios, com ligações diretas respetivamente às linhas de metro Verde, Amarela e Azul, é impossível encontrar melhores ligações em qualquer capital europeia. Um verdadeiro ativo para os cerca de 10.000 moradores da zona norte do Parque das Nações.

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E no entanto, apesar da qualidade desta e outras ligações, ouve-se por aí dizer que o Parque das Nações é mal servido de transporte público. E entre um conjunto de milhares de potenciais utilizadores, esta estação apenas é utilizada por escassas dezenas de pessoas deste lado da linha. Porquê??

Vamos esquecer por momentos que boa parte da população da zona não tem sequer conhecimento das excelentes ligações e voltemos ao caminho para a estação de Moscavide. Tome-se como caso de estudo o percurso mais lógico para os moradores que vêm, por exemplo, da área junto ao rio, algures da zona da Alameda dos Oceanos.

A história que vos vou contar é a de um peão que vai fazer esse percurso até à Estação de Moscavide.

O peão mora junto à Alameda dos Oceanos, a partir da qual caminha em direção à Rua de Moscavide, a qual vai dar, sempre em frente, à estação com o mesmo nome. A largura e desenho dos passeios é um dos aspetos mais apreciados no Parque das Nações e o percurso até à Rua de Moscavide é relativamente agradável, pecando sobretudo por obrigar as pessoas a realizar um desvio e passar no alcatrão quando têm de atravessar uma das ruas transversais. Este pequeno pormenor faz o nosso peão receber a seguinte mensagem no seu inconsciente: “andar de carro é mais importante que andar a pé”.

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Imagine o que pensa o seu inconsciente de um atravessamento assim em relação a um atravessamento onde em vez de ser o peão a ter que ir para a estrada é o automóvel que tem que atravessar o passeio

Apesar desta ser a prática comum em 99,9% dos atravessamentos em Portugal, não tinha que ser assim. Em vez de ser o peão a ter que se desviar para a passadeira e saltar para a estrada para fazer o seu caminho, poderia ser o automóvel a subir um passeio não interrompido, obrigando-o a abrandar o suficiente na curva para permitir que a passagem dos peões não tenha que estar desalinhada do seu percurso no passeio.

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A criação de uma Zona 30 em Alvalade ofereceu aos peões este passeio contínuo. Para ser ainda melhor só faltou reduzir aqueles grandes ângulos de viragem, o que se pode resolver com mobiliário urbano

Já na Rua de Moscavide, apesar de estarmos dentro de vias de carácter absolutamente local, o peão depara-se com situação idêntica: passeios com boa largura, mas atravessamentos descontínuos.

O peão chega agora à Av. D. João II, preparado para a atravessar a caminho da Estação de Moscavide. A Av. D. João II é uma pequena grande auto-estrada de 8 (!) vias de trânsito. Perante isto, o peão sente-se assustado… No caminho para a estação de comboios, no interior do seu bairro, terá que atravessar 8 vias de trânsito onde os carros passam a 70 km/h. Se porventura é um idoso, ou uma mãe com a sua criança, o medo é particularmente elevado.

E o que encontra o peão para atravessar a “auto-estrada” em direção à sua estação de comboios?…

Nada.

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A “auto-estrada” e um semáforo lá ao fundo

Os carros passam a 70 km/h, existem 8 vias para atravessar, e o pretendente a utilizador de comboio não tem meio de seguir em frente, legalmente e em segurança, pela rua que dá acesso direto à estação de comboios. No entanto, 40 metros para o lado existe um semáforo… O nosso peão, contrariado, percorre-os.

 

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O percurso do nosso peão para a Estação de Moscavide

Chegado ao semáforo, espera, e quando fica verde inicia o atravessamento. Depois de atravessar 4 vias de trânsito, chega à placa central, onde observa ainda vermelho o semáforo para as 4 vias que faltam. Enquanto o peão espera mais uma vez, os carros que vêm no sentido contrário passam a um metro de si a 70 km/h.

Se for um idoso, pensa que não pode ter uma queda para a estrada. Se for a mãe com o seu filho, aperta-lhe a mão até a circulação nos dedos dele parar, para se assegurar que não lhe foge. Se for um comum adulto, questiona-se sobre a possibilidade de um dia um carro se despistar enquanto aguarda pelo verde.

O segundo sinal fica finalmente verde e, depois de se assegurar que os automóveis a 70 km/h param mesmo, o peão prossegue o seu caminho e faz mais 40 metros até regressar à rua em que seguia em direção à estação de comboios.

À sua velocidade normal de 4 km/h, o desvio de 80 metros faz o peão perder um minuto e meio. Se for um idoso ou uma mãe com uma criança, esse tempo pode ir para o dobro.

Como há peões que não estão para isso, optam antes por violar a lei e arriscar um pouco mais a vida, atravessando mesmo sem terem uma passagem para isso.

Ainda não chegou ao comboio e a mensagem a ressoar na cabeça do nosso peão já é: “ir de comboio só mesmo para quem não tem uma alternativa!”

O caminho continua, agora de regresso à Rua de Moscavide. Neste momento o peão vai mais uma vez ter que descer o passeio para que os automóveis tenham acesso, não a uma rua, mas desta vez apenas a uma simples garagem. Parece que à medida que se aproxima da estação a prioridade ao conforto e conveniência do peão é cada vez menor.

Para regressar ao passeio, o peão tem que subir um degrau que faz lembrar os dos castelos. Com um palmo de altura, o degrau é difícil para um idoso, chato para um pai com carrinho de bebé e completamente impossível para uma pessoa em cadeira de rodas.

Esta senhora posiciona-se estrategicamente na parte menos alta do degrau.

A partir daqui, como o estacionamento para automóveis é em espinha (para caberem mais carros), o passeio estreita para pouco mais de um metro. Com todo o mobiliário urbano que é atirado para o passeio, deixa de ser possível dois peões caminharem lado a lado (um luxo!) e quando vem alguém em sentido contrário, há que virar o tronco e andar de lado…

Sim, também há passeios estreitos e com obstáculos no Parque das Nações… mas é um percurso apenas utilizado por quem anda de transportes.

Quase na estação, o ousado peão chega ao topo da Rua de Moscavide, onde termina o passeio. A partir daqui, o que acontece ao caminho para a estação? Deixa pura e simplesmente de existir. À frente do peão? Um mar de carros estacionados em todo o lado. Este aglomerado de metal fá-lo questionar sobre o caminho mais adequado para percorrer os 25 metros que faltam até à entrada da estação. Pelo meio do labirinto? Pela estrada para carros, por onde tem que fazer mais um desvio?

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A minha senhora não carro? Amanhe-se!

Em todo o caso, opções semelhantes a meter na lama quem deseje caminhar para uma estação de comboios.

Pensará o peão, nestas circunstâncias, que “tem que ser assim, porque os carros têm que ter lugar para estacionar, e sem isso não haveria mobilidade das pessoas. É um sacrifício que tenho que passar a bem do coletivo.”

Não ocorreu ao ingénuo peão que, tal como ele próprio, outros poderiam deslocar-se de outras formas, e que se fosse assim não seria necessário tanto espaço para carros. Também não lhe ocorreu que tal como uma pessoa não tem que ter uma estação de comboios à porta de cada sítio onde vai, um utilizador de automóvel não tem que ter um lugar (i) à borla (ii) à porta do sítio para onde quer ir.

Ainda lhe passava o pensamento sobre o “bem coletivo” pela cabeça quando virou os olhos para a esquerda e viu logo ali ao lado um parque de estacionamento enorme e totalmente vazio. Afinal, o inconveniente para o peão servia para os automóveis não terem que pagar o espaço público que ocupam.

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Assim, a resposta à pergunta inicial sobre a ausência de pessoas interessadas em ir de comboio é, pelo menos em parte, simples. O caminho para a estação faz as pessoas sentir-se inseguras, desconfortáveis e no último lugar da hierarquia. Como caminho que as faz sentir abaixo de cão, ou elas são amantes do transporte público, ou odeiam o carro, ou valorizam muito a economia, ou então terá mesmo sido a última vez que se dispuseram à experiência de ir de comboio pela estação de Moscavide…

Ok, então como foi possível chegarmos a este ponto, num sítio da cidade que foi pensado de raíz e que é uma referência?

Eram os tempos em que o automóvel era a forma de mobilidade, e em que as alternativas eram tercearizadas ou simplesmente esquecidas. É por isso que o Parque das Nações, apesar da elevada intensidade de tráfego, tem ainda assim excesso de capacidade (8 vias!) e muito excesso de estacionamento (com diversos parques vazios ou semi vazios). O Parque das Nações, tal como a maioria do resto da cidade (incluindo exemplos bem mais recentes…), foi feito a pensar no automóvel.

Os passeios, foram desenhados com uma largura acima da média, mas aparentemente por outros motivos que não a mobilidade das pessoas, ou não veríamos casos bizarros como o da estação de Moscavide, onde os projetistas aparentemente se esqueceram que já existia ali uma estação excelente para transportar os novos moradores do Parque das Nações para Lisboa. Ou mesmo o caso da Gare do Oriente, onde os peões, assim que se têm que cruzar com o automóvel, só podem escolher entre ser conduzidos para dentro de um centro comercial ou ser engalfinhados às dezenas em placas centrais insuficientes e semáforos com tempos de ciclo a pensar na conveniência de quem não anda a pé.

E no início do Séc. XXI? No início do Séc. XXI, o Parque das Nações tem que decidir se quer continuar a ser uma referência sobre o que deve ser uma cidade com qualidade de vida, ou mais um exemplo de planeamento passado desadequado às necessidades do futuro.

Para continuar a ser uma referência, o Parque das Nações tem que estar à altura da sua história de vanguarda, corrigir erros, e ser ousado nas transformações que são necessárias à realização de uma mobilidade que dá prioridade à qualidade de vida.

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