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O espaço partilhado pode funcionar em ruas do Parque das Nações?


O que está a passar-se no Passeio dos Fenícios?

Quando desafiei o meu filho a ir olhar as estrelas a partir do chão da estrada, ele hesitou. Ficar deitado na estrada? Tens a certeza, pai? Para mim não era mais do que repetir o que já tinha feito com o meu primo, na infância. Ali na aldeia dos nossos avôs andávamos à solta pela rua e jogávamos à bola e ao mata no meio da estrada. Quando vinha um carro, parávamos o jogo para lhe dar espaço para passar. Já em Lisboa, pertenço à geração dos que nunca brincaram na rua; para mim, a rua aqui sempre foi um local de passagem e não um espaço para viver. Mas ainda tive a sorte de perceber o que isso era, na aldeia dos meus avós. Somos a última geração que ainda sabe o que isso é. Por isso, ou fazemos algo para as ruas voltarem a ser usadas, ou os nossos filhos poderão bem vir a encontrar-se numa caverna de Platão, da qual nunca sairão porque não sabem que lá fora o mundo é mais interessante.

Não sendo desejável acabar com os carros na rua, existem instrumentos para tornar possível o regresso da utilização das nossas ruas, na presença destes. O espaço partilhado é um deles.

“Isso de partilhar a rua com os carros é uma ideia interessante que pode funcionar noutros países, mas na cultura portuguesa não dá; as pessoas não têm respeito”. Se tomássemos este comentário bastante habitual como bom, teríamos desistido da ideia até ao dia em que os portugueses se tornassem finalmente mais civilizados. Mas a experiência internacional na questão não corroborava a ideia. Também nos países mais desenvolvidos nesta matéria, havia o problema do comportamento de utilização da estrada pelo automóvel. A receita? Desenhar a infraestrutura – a rua – de forma a induzir comportamentos que permitam a partilha do espaço em segurança. E como é que isso se faz?

Como descrevi num artigo anterior, o grande fator causador de insegurança, e que afasta as crianças e outros humanos da rua, é a velocidade. Se a infraestrutura condicionar à prática de velocidades suficientemente baixas, o risco desaparece. Por outro lado, se a rua “convidar” as pessoas a usá-la, seja para brincar, seja simplesmente para caminhar, elas tendem a fazê-lo mais. Além de outros métodos de acalmia de tráfego, a própria sinalização da possível presença de pessoas, não através de sinais de trânsito a que as pessoas pouco ligam, mas de mobiliário urbano que sugira que pode aparecer uma pessoa a qualquer momento, tem um efeito de acalmia. Coloque-se um banco de jardim, um jogo para crianças, uma obra de arte, no meio da rua, e os carros – está demonstrado pela experiência – abrandam mesmo.



Fazer os carros perder referências, e convidar as pessoas a usar a rua através das mensagens transmitidas pela infraestrutura – esta é então a receita para tornar o espaço partilhado possível. Se já tínhamos uma boa ideia disto, faltava-nos a experiência prática em Portugal. No âmbito do programa europeu CIVITAS, tivemos a oportunidade de consultar alguém com uma experiência vasta. Representando o caso de Genebra, a especialista em walkability Sónia Lavadinho, esteve connosco a analisar os detalhes das três ruas visadas pelo estudo que estávamos a desenvolver – O Passeio dos Fenícios, a Rua Nova dos Mercadores e a Rua da Centieira. Contámos também com uma experiência para testar estes pressupostos: durante a Semana Global da Partilha, em Junho de 2015, transformámos parte de uma rua, com mobiliário urbano – obstáculos, pinturas, balões parklets – e eventos com a presença de pessoas em toda amplitude da rua. Esta ocasião, e uma sessão de consulta pública organizada posteriormente, permitiram-nos também recolher opiniões de residentes, lojistas e visitantes. Depois destes passos, estávamos suficientemente confiantes para avançar para o primeiro espaço partilhado.

E porquê o Passeio dos Fenícios?

Foi finalmente inaugurado, no passado dia 16 de Setembro – por ocasião da Semana da Mobilidade, e com a presença do Vereador da Mobilidade, diversos técnicos responsáveis da Câmara Municipal de Lisboa, e especialistas em mobilidade e atividade infantil – a primeira zona de coexistência no Parque das Nações: o Passeio dos Fenícios.

Dado que a zona em que o Passeio dos Fenícios se insere, que tem para ambos os lados da rua espaços amplos disponíveis livres de automóveis, não sendo por isso das mais carenciadas de espaço público livre, é legítima a interrogação: porquê ali?

A razão fundamental de começar pelo Passeio dos Fenícios foi podermos responder à pergunta inicial deste artigo: “o espaço partilhado pode funcionar em ruas do Parque das Nações?” Responder a esta questão era a primeira barreira a ultrapassar, para eventualmente prosseguir depois para outros locais.

O Passeio dos Fenícios era uma rua em que a partilha do espaço, em grande medida, já acontecia, e acontecia por um facto simples: não existe uma demarcação clara entre o espaço para peões e o espaço para automóveis. Esta perda de referências já fazia com que, desde 1998, os fluxos de peões e automóveis tivessem um comportamento semelhante àquele que é expectável numa zona de espaço partilhado. A opção foi, pois, começar por um caso simples, que pudesse servir de exemplo. O Passeio dos Fenícios era a melhor rua da freguesia do Parque das Nações conseguir uma demonstração de um espaço partilhado, ao custo mais baixo possível.

O que é que está diferente e o que se pretende? Quem for visitar o Passeio dos Fenícios, encontrará agora mobiliário urbano espalhado pela rua – canteiros e cadeiras recuperados da Expo98 – , árvores e outros objetos decorados – um trabalho de idosos de um centro de dia local – e jogos para crianças – onde de vez em quando também se vêm adultos.

O Passeio dos Fenícios é, sobretudo, um local de passagem, mas também um ponto de encontros ocasionais entre vizinhos, além da presença de algumas lojas ou serviços. Apesar dos fluxos de pessoas e carros já terem características de espaço partilhado, era necessário ir mais longe, acalmando mais o tráfego, cuja velocidade ainda era excessiva, e transmitindo a mensagem de que aquele é um espaço para pessoas. Queríamos que os adultos sentissem confiança para largar as mãos das crianças, ou para quando se encontrarem com um vizinho a meio da rua, poderem permanecer mesmo ali a conversar. Queríamos que os pais tivessem confiança suficiente para deixar os filhos ir brincar lá para fora, no excelente espaço público que circunda a zona, sem que os carros no atravessamento do Passeio dos Fenícios sejam a principal barreira a que isso aconteça. Queríamos que o Passeio dos Fenícios ficasse mais bonito – há quem diga que era uma rua cinzentona – e que não seja um mero local de passagem, mas um local onde dê prazer passar. Queríamos que houvesse algo para sorrir, e até permanecer um pouco, à porta da Kid-to-Kid ou à porta da escola de música. Finalmente, queríamos também que os peões e ciclistas que seguem no importante eixo pedonal do Passeio dos Jacarandás, que cruza com esta rua, não sentissem a barreira física – de carros estacionados – e psicológica – o sentimento de insegurança no atravessamento de uma estrada – que antes existia, e que passem a vê-la como um atrativo no percurso. O mesmo deveria acontecer nas restantes transições pedonais relevantes ao longo da rua.

A primeira vez que entrei no Passeio dos Fenícios depois deste já ter algum do mobiliário que agora lá se encontra, vi numa zona especialmente pouco atrativa da rua um grupo de miúdos sentados num canteiro, a conversar. Apercebi-me nesse momento que, em anos a passar no Passeio dos Fenícios, era a primeira vez que via ali aquele tipo de utilização. Desde então, temo-nos vindo a aperceber de outras utilizações da rua que antes não aconteciam, de pessoas que param e, por qualquer motivo, ficam. Chama-se a isso reapropriação da rua pelas pessoas.

Artigo publicado no jornal Notícias do Parque, Outubro 2016

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