espaço partilhado, Sem categoria

Entrevista Notícias do Parque – Espaço Partilhado: humanizar as ruas

rnmevento04

Com o empenho da Junta de Freguesia do Parque das Nações, diversos atores locais e o acesso a um pequeno fundo europeu, o estudo e teste da criação de espaços partilhados tem dado alguns passos importantes. Explico tudo nesta entrevista ao Notícias do Parque.

 

Como surgiu este projeto?

A ideia do espaço partilhado surgiu da cabeça de um engenheiro holandês que, nos anos 80, conseguiu convencer um presidente da Câmara mais corajoso a testá-la. A ideia é que se retirarmos das ruas a tradicional separação entre canais para pessoas e canais para automóveis, isso fará com que os condutores se sintam responsabilizados e tenham um comportamento de maior cuidado perante os peões, ao mesmo tempo que as pessoas ganham mais espaço para si e as ruas se livram de uma série de regras e sinais de trânsito, ficando mais humanizadas. É um pouco regressar ao tempo dos nossos pais e avós, onde a rua era como uma extensão da casa das pessoas e um pátio para as crianças jogarem à bola ou à macaca, interrompendo o jogo quando vinha lá algum carro.

Aos poucos, a criação de zonas de espaço partilhado foi-se espalhando pela Europa fora, com maior ou menor sucesso dependendo dos contextos em que foi aplicada. Um contexto em que esse sucesso tem sido mais ou menos inequívoco é o das zonas residenciais com pouca intensidade de tráfego e onde as pessoas que ali vivem desejam que a sua rua seja um local mais agradável e humano. Depois de, em 2014, o nosso Código da Estrada finalmente prever a possibilidade de criação de espaços partilhados, fiquei entusiasmado com a possibilidade de testar a sua introdução em locais do bairro onde moro.

A criação de espaços partilhados no Parque das Nações no curto prazo faria tanto mais sentido como ele tem diversas ruas cuja infra-estrutura já tem a capacidade de induzir comportamentos próprios de um espaço partilhado, tornando pouco clara a separação do espaço entre automóveis e peões, utilizando materiais distintos do tradicional, abdicando quer do desnível entre canais quer de passadeiras. Além disso, as pessoas que escolheram vir para aqui viver dão muito valor à qualidade do espaço público. Pareceu-me que o nosso bairro poderia ser um excelente palco dessa experiência e, tal como em outros aspetos, tornar-se uma referência que depois é copiada noutros locais.

Quando apresentei a ideia ao então vogal da mobilidade da Junta, Paulo Andrade, apoiou-a entusiasticamente e foi integrada enquanto um dos cinco pilares de intervenção previstos no documento de Princípios e Orientações para Mobilidade na Freguesia do Parque das Nações.

Mais tarde elaborámos uma candidatura a um pequeno financiamento europeu da iniciativa CIVITAS, que promove ações inovadoras na promoção da mobilidade sustentável e amiga das cidades. O projeto passava por aprender com a experiência de uma cidade experiente em espaços partilhados, que é Genebra, e realizar uma fundamental consulta à população sobre esta matéria.

De que forma é que se vai concretizar?

Esta mudança requer uma alteração de mentalidade que não acontece da noite para o dia, e por isso tem que ser gradual e necessariamente envolver as pessoas. Não deve ser simplesmente desenhada a partir de um gabinete, mas na própria rua, com as pessoas que ali vivem. Por isso neste projeto colocámos a ênfase na participação pública. Se as pessoas não compreenderem, não abraçarem, as alterações que são esperadas, dificilmente irão funcionar. Não basta colocar um sinal de trânsito a dizer que o espaço é partilhado. É preciso que as pessoas o sintam dessa maneira.

Para isso é também fundamental o tipo de mensagens que a infra-estrutura da rua transmite. Se tivermos sinais, semáforos, betuminoso, passadeiras, as pessoas percecionam-na como um espaço para carros. Se pelo contrário tivermos materiais ou pinturas diferentes, ausência de sinalização, mobiliário urbano que humanize os espaços, quem ali conduz ou anda a pé vai encarar aquele espaço como um espaço para pessoas, onde os automóveis são convidados aceites.

Estivemos a estudar os locais visados pelo estudo com a equipa da cidade de Genebra. Aprendemos imenso. Ao mesmo tempo, realizámos ações de experimentação e consulta às pessoas. Em Junho, no âmbito da Semana da Partilha, surgiu a oportunidade de colaborar com diversos parceiros da sociedade civil na concretização de uma experiência de espaço partilhado numa parte da Rua Nova dos Mercadores. Realizámos dois parklets, ou seja, utilizámos lugares de estacionamento para colocar mobiliário para as pessoas se sentarem e usufruirem do espaço. Ao longo dessa semana, foi comum ver crianças a brincar no meio da rua. Tivemos eventos de discussão. Aproveitámos todas as oportunidades para obter feedback das pessoas. Foi fantástico ver o brilho nos olhos de alguns residentes com a vida que se gerou. O ponto de maior desconfiança, como esperávamos, é o da da insegurança que é percecionada. É necessário explicar que a experiência de três décadas na Europa demonstra que o espaço partilhado em locais como este não só não tende a aumentar os acidentes, como a diminuir os acidentes graves, pelo facto de induzir o desejado maior cuidado por parte dos condutores.

Mais recentemente realizámos outro evento de consulta pública. Até ao final do ano estamos a consolidar a aprendizagem que acumulámos e colocaremos no papel algumas propostas simples de intervenção para serem testadas.

 
Que mudanças e benefícios podem os moradores esperar?

Foram escolhidos três locais para realizar este estudo, por motivos distintos. Um dos critérios foi começar por casos mais fáceis, onde  a baixo custo e com medidas suaves se consiga obter o efeito pretendido nos espaços partilhados, podendo servir de exemplos de sucesso em Portugal. O Passeio dos Fenícios, na zona norte, é uma rua que já funciona em grande medida como espaço partilhado, na medida em que não existe distinção entre locais para peões e automóveis e as pessoas utilizam habitualmente toda a amplitude da rua. Além de a legalizar como rua de coexistência, através de pequenas alterações de mobiliário urbano será possível demover a ocorrência de velocidades excessivas e aquecer um pouco a frieza que caracteriza esta rua. Como local de cruzamento de pessoas em várias direções, queremos que se sintam confortáveis a conversar quando encontrarem um vizinho. Queremos que os pais não tenham receio de largar os filhos quando saírem da porta do prédio. Queremos que o peão se sinta o rei da rua e que ela não seja percecionada como uma barreira onde os carros metem medo.

Na zona poente, escolhemos a Rua da Centieira, que é uma rua com características muito fortes de bairro, onde as pessoas ainda se lembram bem de como era quando eles próprios, enquanto crianças, ali brincavam. Gravemente, os passeios são estreitíssimos e não existem quaisquer espaços públicos para se estar. Ali ao lado, nasceu o Metrocity, o qual também está algo isolado do mundo, ao mesmo tempo que a Rua da Centieira oferece restaurantes e cafés. Com a criação de um espaço partilhado, acreditamos que possa tornar-se um local muito mais agradável para viver. A Câmara Municipal de Lisboa prevê que esta rua seja em breve intervencionada no âmbito do programa Uma Praça em Cada Bairro. Iremos apresentar-lhe as conclusões do nosso estudo, para que as possa ter em conta nessa intervenção.

Finalmente, a Rua Nova dos Mercadores e suas transversais constituem um aglomerado simpático cujo perfil já convida à utilização da amplitude da rua e induz um maior cuidado pela maior parte dos condutores. Na zona sul, muitos moradores queixam-se de que ainda faltam locais onde as pessoas se sintam suficientemente confortáveis para se apropriarem do espaço. A um nível micro, acreditamos que a criação de um espaço partilhado em toda aquela zona possa contribuir para a criação desse sentimento. Um dos nossos sonhos é, por exemplo, ver os pais a ter confiança suficiente para deixar os seus filhos pequenos sair à rua travar conhecimento e brincar com os vizinhos. À hora do jantar, a máe ou o pai abre a janela e chama: “filho, podes voltar para casa, o jantar está na mesa!”

Publicado no Notícias do Parque em Dezembro de 2015

Standard

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s